Assunto: História terrestre e mortal de Jesus: Pressupostos, fundamentos e hermenêutica.
Palavras-chave: anuncio do reino, espelhamento, exorcismo, relação com o Abba, poder, liberdade
Aula: 28/10
Anúncio do Reino
Jesus anuncia o Reino através de: Parábolas, Milagres (curas) e Exorcismos = espelhamento
Espelhamento
Revelação da fragmentação do mundo por forças satânicas. Através das curas percebe-se o mundo fragmentado. Espelhamento é o elemento revelador da realidade fragmentada, revela que o presente está muito distante do que é o futuro de Deus para a Criação.
Exorcismo
1 – Tem uma função social – são expressão de “cartase” da sociedade. No tempo de Jesus o exorcismo é uma expressão visível de que a pessoa exorcizada, ou “possuída”, era expressão visível e “receptáculo” do mal.
2 – Não há interesse explícito de resolver a situação. A sociedade prefere manter o “endemoniado”, porque ele catalisa em si todos os problemas sociais.
3 – Instituição de um grupo de exorcistas profissionais. Função de integrar provisoriamente o sujeito que foi exorcizado, realizado através de ritos e pagamentos. O exorcista profissional não interessa romper definitivamente este ciclo, mas provisoriamente.
Exorcismo definitivo
Não tem preço, não tem ritos, e insere o exorcizado na comunidade. O interesse é reintegrar o sujeito, inseri-lo na sociedade.
O grande eixo hermenêutico do anúncio do Reino: A cruz ou a morte de cruz. Jesus revela de fato que não há nele nenhuma expectativa de “espetáculo”, não tinha interesses particulares, de promoção de si mesmo.
Texto: CONDENSAÇÃO TEOLÓGICA SOBRE JESUS DE NAZARÉ
A. JESUS E SUA RELAÇÃO COM O ABBA
1. Jesus não apenas falava de Deus, mas, antes, falava a Deus, na intimidade do nome Abba, assim como numa sincera atitude de escuta de sua vontade.
2. Jesus se sente amado e íntimo de Deus, o Abba. Essa relação de intimidade e de amor permite a Jesus viver no abandono livre e fiel ao seu Abba.
3. A relação de abandono não é o mesmo que uma relação passiva, no aguardo de que Deus fará tudo por todos.
4. Jesus não ensina uma nova doutrina sobre Deus, mas revela – esta é a novidade nesse caso – um novo modo de se relacionar com Deus, na intimidade e na partilha da vida.
5. A novidade é, então, a maneira como Jesus se refere inteiro ao Pai e nos convoca a essa mesma entrega. O Abba é, para Jesus, a referência que dá sentido para tudo o que ele faz e, sobretudo, que lhe garante a coragem e ousadia de entregar-se totalmente para os outros.
6. Referir-se inteiro ao Abba é estabelecer uma relação interpessoal de amor, isto é, Deus entra no diálogo com o ser humano, como um parceiro, pronto para ouvir e para amar. Essa garantia de amor que fortalece nossa experiência de sermos pessoas, como, certamente, aconteceu também com Jesus.
7. Essa relação estabelecida entre Jesus e seu Abba (figura de nossa relação com Deus e também com todas as pessoas) introduz Jesus na comunhão com Deus e exige dele uma resposta.
8. Jesus também experimenta Deus como alteridade. Embora isso não signifique distância, é preciso reconhecer que nem mesmo Jesus teve controle sobre Deus, isto é, Jesus não dispõe de Deus.
9. Em síntese, Jesus somente se realiza como ser humano na sua referência irrestrita ao Abba. Jesus é pura referência. Em outras palavras: Jesus não começa em si mesmo, nem termina em si mesmo. Sua referência fontal é o Pai, sua referência última é o Pai e o caminho entre uma e outra são os irmãos e irmãs.
10. E, finalmente, essa experiência de Jesus com seu Abba, configuradora da relação de Jesus com todos os que se lhes apresentam, é um processo, bem como é um processo a consciência que Jesus tem de sua missão, nascida dessa referência ao Abba.
11. Dizer que é um processo significa: a intensidade da experiência que Jesus tem de sua missão, filha da sua inaudita relação com o Abba, não é tematizada de uma vez por todas, mas ao longo do caminho. A experiência já é um dom interior, mas sua tematização é um evento histórico, acontecido no cotidiano da vida de Jesus.
12. O problema da consciência que Jesus tem de sua missão não pode ser resolvido matematicamente.
B. JESUS E O ANÚNCIO DO REINO MESSIÂNICO
1. O anúncio do Reino Messiânico, por parte de Jesus, dá-se através dos seus ‘gestos e palavras’, em outras palavras, Jesus faz o que diz e diz o que faz. Isso significa que, em Jesus, são inseparáveis a mensagem e a pessoa.
2. O poder de Jesus é uma autoridade que vem de dentro, brotando de sua vida, da fidelidade e da coerência com que assume o seu messianismo.
3. A palavra autoridade significa uma ação que faz crescer, que faz ir para além de si mesmo (auctoritas – augere), com base nessa autoridade que Jesus convoca e acolhe discípulos.
4. Aos que essa autoridade incomoda, há um desconforto. Aos que essa autoridade encanta, há uma promessa de vida.
5. Deve ficar claro, pois, que o anúncio do Reino, feito sob o alicerce dessa autoridade singular de Jesus, não é o anúncio de uma pura doutrina religiosa, mas é a abertura efetiva, já presente e ainda esperada, de um novo caminho, que podemos chamar de Futuro de Deus para sua criação.
6. O Reino de Deus, anunciado e vivido por Jesus, não pode ficar reduzido a uma causa pela qual nós trabalhamos, ou nos organizamos.
7. Ao contrário, a adesão ao Reino é a configuração da pessoa toda à vida de Jesus, transformando a si mesmo e atuando profeticamente na sociedade.
C. LIBERDADE EM JESUS
1. A liberdade de Jesus é, humanamente, uma aquisição gradual em sua vida. Isso significa que Jesus vai se fazendo livre, na medida em que se percebe como Messias e percebe, mais fundamentalmente, que seu messianismo é singular e distinto das expectativas messiânicas de seu povo.
2. A liberdade de Jesus é um ato de amor. Não se trata de uma liberdade parcial, setorial da vida, mas que inclui a vida inteira. Sua liberdade é a liberdade do amor, isto é, Jesus é livre para ser totalmente voltado para o seu Abba e para os outros. Não é livre simplesmente para fazer o que quer (essa é uma visão moderna e pobre da liberdade, piorada quando ainda queremos chamar de liberdade a manipulação dos outros para que façam o que nós queremos), mas para configurar-se a um projeto, a uma opção fundamental: cumprir a vontade de seu Abba.
3. Sua liberdade somente pode ser entendida como sendo a liberdade no plano mais profundo: movido por amor e pela intimidade que o faz amado por seu Abba, Jesus decide ser livre a tal ponto que abre da própria liberdade, em razão de um amor maior. Desse modo, torna-se livre de si. Livre de si, pode ser inteiramente do Abba e para os outros (para o cuidado dos outros). Isso é que faz de Jesus o homem livre, por excelência.
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