terça-feira, 12 de agosto de 2008

E vós, quem dizeis que eu sou - Aula de 05/08/08

CRISTOLOGIA
Assunto: Apontamentos sobre o percurso histórico da Cristologia, primeiras elaborações

Texto: “Introdução, ou: E vós, quem dizeis que eu sou”. (Autor Pe. Flávio Luís)

Palavras-chave: profissão de fé, contexto de violência, morte de Jesus, crucificação, Cristologia, Jesus histórico, Cristo da fé, encarnação, pecado

Profissão de fé cristã

No centro da liturgia eucarística está a profissão central da fé cristã: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” Profissão esta que é repetida muitas vezes, sem efeito afetivo e efetivo. Mas, quando é proclamada de modo consciente ela apresenta-nos algumas questões para reflexão.

Inquietações

Esta profissão de fé, anunciada no contexto de violência que estamos inseridos desperta em nós cristãos algumas inquietações: Qual a novidade de anunciar uma morte entre tantas que são anunciadas no nosso cotidiano? Qual sentido da morte de Jesus em uma sociedade marcada pela evolução tecnológica e científica? Como anunciar esta morte neste contexto? Outro questionamento que interpela-nos é que parece absurdo anunciar a vida após o anúncio da morte. O que de verdadeiro e palpável essa ressurreição proclamada trouxe para a humanidade, já que a mesma ainda vive em estado de morte, marcada pela miséria, fome, injustiça e opressão? Qual diferença faz o anúncio da morte/ressurreição nesta realidade?

Questão balizadora da Cristologia

Através das questões apresentadas, verificamos que a Cristologia tem como questão balisadora a pergunta: “Quem é Jesus para nós?”. E para responder esta pergunta a Cristologia realiza o diálogo com as ciências e com o mundo contemporâneo, referindo-se sempre à vida do homem de Nazaré, do Jesus histórico, e não o Jesus da fé. Compreender Jesus a partir de sua humanidade insere-o em nosso contexto histórico e proporciona luzes para compreender o sentido de sua morte e ressurreição.

Itinerário de Jesus de Nazaré

Para compreender quem é Jesus de Nazaré é necessário identificar o que marca o seu itinerário, que é a sua relação com o Pai, com o Abba, e não os fatos extraordinários do Jesus da fé. A vida concreta de Jesus, o nazareno, é marcada pelo modo de como ele se coloca inteiro numa relação nova com Deus, a quem chama de Pai, Abba, diferente das concepções judaicas de sua época. A ótica para compreendê-lo é sua relação com o Abba e a característica assumida de portador de gestos e palavras sobre o Reino de Deus, ou seja, a vontade do Abba.

Sentido da morte de Jesus

Devemos compreender a morte de Cristo não como desejo de Deus, mas como conseqüência de seus posicionamentos críticos diante dos sistemas e estruturas de sua época. Quando buscamos o sentido de sua morte de modo isolado, adquirimos uma visão deturpada desse fato. Não podemos compreender esse ato brutal, violento e sanguinário como o desejo de Deus, essa concepção é contraditória ao Abba apresentado por Cristo. Para compreender esse fato é necessário compreender sua morte num conjunto maior de fatos, através de todas as estruturas da época, como a familiar, política, religiosa, cultural, cultural e econômica. Nesta concepção é possível re-significar a idéia de Santo Anselmo de que a morte de Jesus foi desejada e planejada por Deus. A vontade de Deus para Jesus, a que ele ensinou, era a sua fidelidade ao projeto do reino, até as últimas conseqüências, e não um plano de morte. Essa fidelidade absoluta quebra o círculo perverso da violência, pois expressa a capacidade humana de poder agir com amor em situações de desamor. Nisto consiste a nossa salvação.

O Mistério da encarnação não se efetivou por causa do pecado

Através do Cristo histórico a salvação é expressa pela potencialidade humana de romper com todo o mal e optar pelo Reino de Deus na fidelidade. Esse é o sentido de sua morte, compreendido através de sua trajetória de vida, porque Jesus é a plenificação da história da humanidade. O mistério pascal, encarnação/paixão/morte/ressurreição/glorificação não se efetivou por causa da realidade do pecado, mas pela realidade da graça de Deus, de elevar o homem à plenitude de sua condição humana, de recuperar nele a imagem e semelhança do criador, não pelo aspecto divino, mas pela plenificação do humano. Esta visão não nos afasta do mistério, mas faz-nos perceber o sentido da “Kenosis” de Cristo, para tornar-se a epifânia mais plena de Deus aos homens, a existência mais autêntica da humanidade diante de Deus e a expressão perfeita da relação do homem com seu semelhante. De tão humano que foi expressou na sua humanidade a plenitude do divino. ▄

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